Desde sempre o trabalho em clínica, não apenas em psicologia, mas também ao nível de outras “ciências terapêuticas”, como a Medicina, possuem um dilema que mesmo hoje está longe de ser unânime. O dilema é relativamente ao foco da intervenção, na origem ou nos sintomas? Qual será o melhor caminho para a “cura”?

Aparentemente a resposta a este “dilema”, é óbvia, devemo-nos focar da origem. Mas a questão é mais complexa do que inicialmente parece.

A origem do problema, parece como foco óbvio, independentemente seja medicina, contudo em alguns, esse óbvio deixa de o ser, tais como:

Não se sabe qual é a origem: Muitas vezes tanto na psicologia como na medicina a origem é indeterminada, limitando a intervenção dos técnicos de saúde aos sintomas. Para um mesmo sintoma podem existir muitas causas, além de que o sintoma é algo, de fácil busca, que o próprio individuo e/ou os indivíduos que o rodeiam observam como fora do normal, enquanto  origem é algo situado nas profundezas do inconscientemente.

Os sintomas impossibilitam a procura da origem: Por vezes o estado físico e/ou psicológico da pessoa impossibilita a procura da origem do problema. Por exemplo no caso de psicose, quando a realidade se confunde com o inconsciente, é difícil determinar o que é real e o que não é, sendo impossível encontrar a causa com exactidão.

Os sintomas camuflam a origem: Em alguns casos, os sintomas que a pessoa expressa, têm como único objectivo, camuflar a origem. Um exemplo claro disso mesmo, na perturbação de personalidade narcisista, os sintomas como egocentrismo, o sentimento de grandiosidade, entre outros, têm como objectivo inconsciente compensar a baixa auto-estima e o vazio interno.

A origem e o sintoma confundirem-se: Por vezes a origem pode confundir-se com o sintoma. Temos o exemplo das fobias e da ansiedade consequente. A fobia pode ser considerado a origem, enquanto a ansiedade o sintoma, contudo a fobia já por si é um sintoma, que algo consciente ou inconsciente que aconteceu no passado.

A pessoa sente-se bem só tratando os sintomas: Após os sintomas minimizarem ou mesmo desaparecerem, o individuo poderá sentir-se “curado”. Neste caso, qual é a legitimidade do técnico de saúde questionar esse estado? Por exemplo: se um individuo, tem elevados níveis de ansiedade e aprende técnicas para a dominar, conseguindo mesmo domina-la. Este pode sentir-se “curado”, mas será que está realmente?

Consciencializar a pessoa da origem, pode desencadear ainda mais sofrimento que os próprios sintomas: Em alguns casos os sintomas a tomada de consciência da origem, pode eventualmente provocar mais “danos” que os próprios sintomas. Muitas vezes uma incapacidade (sintoma) é preferível que o confronto com a falta de amor (causa).

Pegando no exemplo da ansiedade, deve-se promover competências na pessoa de forma a esta dominar o sintoma ou encontrar a origem e diminuir ou mesmo acabar com a ansiedade?

Mesmo dentro da psicologia, as duas principais escolas de pensamento, dividem-se mediante este dilema. A linha de Freud com a Psicanálise e Psicodinâmica, focando-se na origem, pondo os sintomas em segundo plano. Já a linha Comportamental e Cognitiva, a Cognitiva-Comportamental, foca-se nos sintomas, pondo a origem em segundo plano.

Qual a abordagem correcta? Será necessário ir mesmo à origem?

Não existe uma abordagem correcta, existe determinada abordagem mais eficaz consoante o problema/assunto e a pessoa. Ir à origem do problema, é importante, mas não obrigatoriamente necessário, para existir uma “cura”.

Cura é um conceito muito complexo e subjectivo. Tanto pode ser a resolução do problema, como a ausência de sintomas e tendo em conta estas 2 definições, ambas as abordagens estão correctas.

De forma geral as abordagens focadas nos sintomas, como a cognitivo-comportamental são mais rápidas, mas a sua capacidade de “curar” é questionada. Cada vez mais, meta-estudos indicam para cada problema/patologia/assunto, quais as intervenções mais eficazes. Mas de forma geral, tendo em conta a “cura” e a duração, as terapias cognitivo-comportamentais, são assinaladas nos estudos como as mais indicadas.

Pessoalmente, acho importante trabalhar nessas duas direcções, numa abordagem integrativa. Trabalhando os sintomas, com as técnicas e métodos cognitivo-comportamentais, porem acho importante na maioria dos casos uma conceptualização psicodinâmica. Penso que tomar consciência da origem da causa é um beneficio do processo, mas não é tudo, além de que existem sintomas que podem influenciar directamente a vida da pessoa, por isso necessitam de ser controlados.

Em alguns casos, tomar consciência da origem não é essencial, como as experiências passadas nos “ensinaram o inconsciente” a ver a realidade de determinada forma, também podemos “aprender” a ver a realidade de forma diferente.

E para você, qual o foco, a origem ou o sintoma? Qual será o melhor caminho para a “cura”?