Ao longo da história da ciência observa-se que nenhum medicamento ou tratamento, tem o mesmo efeito com todas as pessoas. Este fenómeno tem inúmeras explicações: biológicas, ambientais, etc. Porém um factor importante e que normalmente é negligenciado são: os ganhos secundários.

A ciência sempre se questionou porque com uma pessoa, determinado tratamento, determinando medicamento, faz milagres, enquanto noutra pessoa aparentemente muito semelhante, não tem qualquer efeito.

Muitos motivos são apontados para este fenómeno, porém existe um factor importante que muitas vezes é negligenciado e posto de parte, estou-me a referir aos ganhos secundários. Os ganhos secundários são um factor oculto, mas sempre presente em todas as doenças, patologias psicológicas ou mesmo físicas.

Inúmeras pessoas devido a uma súbita doença, trauma ou mesmo patologia, encontram a satisfação de algumas necessidades suas, tais como: carinho, atenção, estatuto, privilégios, dinheiro, benefícios fiscais, etc. De uma forma consciente ou inconsciente, essas pessoas encontraram uma resposta para as suas carências, para aquilo que necessitavam ou mesmo para aquilo que desejavam. Quando isso acontece essa doença, trauma ou patologia deve ser mantida e “alimentada”, já que enquanto existe está a saciar/satisfazer necessidades, interesses ou mesmo desejos. De forma consciente ou muitas vezes de forma inconsciente esse “mal” é mantido, originando muitas vezes uma divergência entre a perspectiva consciente e a inconsciente.

Muitas vezes o consciente quer “ficar bom” enquanto o inconsciente quer “permanecer doente”. Isso acontece principalmente quando o “mal” ou a “doença” está a ter uma função que o inconsciente interpreta como benéfica. O inconsciente está a usar o “mal-estar”, a”doença” para conseguir atingir os “seus fins”, seja eles quais forem.

Mesmo identificando “propósitos” inconscientes, que mantêm a pessoa doente ou mantêm o mau estar da pessoa, é impensável confrontar o consciente da pessoa, já que se a pessoa não tem consciência desse mesmo funcionamento, irá ter necessariamente duas reacções: indignação ou negligência, porém ambas levam a um aumento de resistência do inconsciente e um fortalecimento da manutenção do “mau-estar”. Por outras palavras, face ao confronto, as pessoas reagem respondendo: “ Está a dizer que eu estou “mal” porque quero?” ou então têm uma atitude muito compreensiva, ouvindo e aceitando, mas irão ter uma atitude de completa negligência, fazendo de conta que nada foi dito. Poucas pessoas após um confronto sobre a possível “verdade” têm uma epifania, não é com frequência que as pessoas aceitam que estão contribuindo para o seu mau estar, mesmo que inconscientemente.

Quando existe este fenómeno, de o inconsciente alimentar-se das consequências do “mal-estar”, esse mal-estar torna-se uma tarefa muito difícil de remover, mesmo que o consciente da pessoa consiga ver todos os prejuízos na sua vida derivados desse mau estar. Nestes casos, qualquer terapia ou medicamento, faz pouco ou nenhum efeito, já que o desejo inconsciente é de continuar com o “mal-estar”.

Nestes casos enquanto a pessoa não substituir as consequências do “mal-estar” por outra coisa que alimente as suas necessidades/ interesses, não vai conseguir “curar-se”. Nestes casos é necessário focarmo-nos sobre a origem e situar o sintoma em segundo plano. Se determinada patologia, doença, dor, mal-estar, permanece durante muito tempo, resistindo a diversas terapias, pergunte-se: “Qual é a “função” que esse sintoma está a executar?”, “Qual é o vario que esse sintoma está a preencher?”.

Acredito que muitas vezes as pessoas possam ter alguma consciência da eventual origem do problema. Pois para muitas pessoas o sofrimento do “mau estar” é inferior ao sofrimento de enfrentar o chefe e o trabalho que odeia. Para muitas pessoas o sofrimento de ser “diferente” é inferior ao sofrimento de ser categorizada como preguiçosa ou desmotivada.

E você, qual a origem do seu mal-estar?