Todos nós enquanto crianças, ouvimos dos nossos pais de forma consciente ou não profecias que irão marcar inevitavelmente a nossa vida. Estas profecias, pela sua natureza, podem ser consideradas auto-realizáveis, muito semelhante ao efeito pigmaleão anteriormente referido.

Inevitavelmente antes de nascemos, as pessoas à nosso volta já possuem expectativas e objectivos para o que iremos querer e como seremos. A expectativa é algo inato, inconsciente e espontâneo, logo, em muitos casos não existe consciência da mesma.

A expectativa é algo complexo de explicar, podemos começar com uma definição:

1. Acto ou efeito de expectar. = ESPERA

2. Esperança baseada em supostos direitos, probabilidades, pressupostos ou promessas (ex.: o livro superou as expectativas).

3. Acção ou atitude de esperar por algo ou por alguém, observando. = ESPERANÇA

É inevitável que a expectativa esteja relacionada com a forma como nos relacionamos com os outros, com o nosso valor, com a nossa personalidade, inteligência, etc. Assim sendo, independente dos factores externos, existem inúmeros factores internos que influenciam as expectativas, porém como já referido, muitas vezes não existe consciência dessa mesma influência. De uma forma sucinta, a expectativa reflecte aquilo que somos, pois o nosso olhar sobre o outro, está sempre influenciado pelo nosso olhar sobre nós próprios.

As “profecias” que as pessoas à nossa volta fazem quando somos pequenos, ao contrário que possa parecer, pode não ser necessariamente uma expectativa “pura”. Essas “profecias” resultado da expectativa combinada com a forma como nos relacionamos com o outro. Isto é, as “profecias” reflectem aquilo que somos, combinado com o que queremos/desejamos para o outro.

Daí, quando existe uma “profecia” “ nunca serás capaz” ou mesmo “ nunca serás ninguém”, essa “profecia” não reflecte necessariamente uma expectativa relativamente a escassas capacidades e aptidões do outro. Em muitos essa “profecia” pode reflectir mesmo o contrário. Pois uma pessoa que acredita que tem pouco valor, observando um elevado valor no outro e acreditando que todo esse valor pode por o seu valor em causa, sente-se ameaçado, levando a tentar convencer o outro de que todo esse valor que o outro possui, não existe. Tudo isso num processo semi-consciente.

Essas “profecias” são de extrema importância, na construção de um ser humano, pois somos “construídos” através do feedback das pessoas que nos rodeiam, da relação com o outro, principalmente com os cuidadores primários. Os pilares de quem somos, da nossa realidade, são construídos na infância, pelos nossos educadores. Assim sendo, é difícil “ser algo”, quando se nasce e se cresce a ouvir que “nunca serás nada”.

As “profecias” na infância, dada a natureza de “construção” do ser humano, transformam-se em profecias auto-realizaveis (semelhantes ao efeito pigmaleão). Essas “profecias” dão origem a crenças, quase imperceptíveis que se “alojam” no nosso inconsciente, fazendo com que nos auto-sabotemos de forma inconsciente, quando tentamos contrariar essas crenças.

Porém, como em toda a natureza humana, nada é determinístico, tudo é alterável. É possível ter-se consciência dessas crenças auto-sabotadoras e elimina-las, contorna-las ou resignifica-las. A chave para isso resume-se em:

  1. Auto-conhecimento (conhecer-se bem a si mesmo. quais as suas motivações? ; quais os teus medos/limites?; etc)
  2. Querer mudar  ( Vontade/ motivação para mudar; Trocaria o que sou, pelo que gostava de ser? Estou seguro dessa troca?)
  3. Acreditar que é possível (É possível ser uma pessoa diferente?; É possível mudar? )
  4. Acção ( Enfrente!; Responsabilize-se! ; Faça! ; Confronte-se!; Saia da zona de conforto!)

É importante referir que inevitavelmente você irá ser educador, de forma implícita ou explícita. Desta forma, e para evitar que essas “profecias” sejam desadequadas ou provoquem sofrimento no outro, ou mesmo de forma ideal, evitar por completo, é necessário autoconhecimento, conhecer-se a si mesmo. De forma que o seu olhar sobre o outro não seja “poluído” pelo olhar sobre si próprio.

Tenha bem presente que:

  • Cada pessoa é única.
  • Podem existir tendências (educação, cultura, biologia, etc.), mas nada está determinado.
  • É possível mudar, ser uma pessoa diferente, independente do que foi no passado.
  • É possível escolher quem queremos ser.
  • Toda a mudança significativa implica necessariamente esforço, investimento pessoal e sair do espaço de conforto.

 

E você? Quais foram as suas “profecias”?