A sociabilização e os relacionamentos, desde o início dos tempos têm sido alvos de questões não apenas filosóficas, mas e principalmente científicas. A forma como as pessoas se relacionam e o que mantêm as pessoas unidas, foi para muitos desde sempre um mistério. Alguns associavam a Deus, ao Destino, que tinham que se cruzar, defendendo que estava escrito. Já outros defendiam uma perspectiva fisiológica, até mesmo bioquímica, as pessoas atraem-se mutuamente e mantêm-se juntas pela química. Existem imensas perspectivas sobre o relacionamento das pessoas, o porque elas se atraem e como elas se mantêm juntas. Mas na verdade em que podemos acreditar? O que nos diz a Ciência?

Relações, Deus e Destino

No passado, o facto de as pessoas se atraírem e se manterem juntas era atribuído a Deus e ao destino. Ainda hoje, existem algumas perspectivas esotéricas e pseudocientíficas que se aproximam à perspectiva da existência de um destino determinístico, onde tudo está previamente (mais ou menos) escrito. Obviamente, não irei julgar a veracidade, a credibilidade, nem a natureza destas perspectivas, porém, elas inevitavelmente influenciam a forma de muitas pessoas verem e mesmo estarem nos relacionamentos.

Quando assumimos que certa pessoa está no nosso caminho, porque Deus assim quis ou porque estava escrito no destino, invalida necessariamente não apenas a nossa escolha, como também a escolha do outro.

O Paradoxo do Destino e o Livre Arbítrio

Nesta perspectiva, que destaca Deus e o Destino como orientadores dos relacionamentos das pessoas, existe um subtil paradoxo, uma subtil contradição. Tão subtil, mas tão relevante que pode invalidar muitas destas perspectivas.

Basta seguir a lógica de pensamento: se tudo está escrito, logicamente não existe realmente uma escolha. Se algo superior a nós, seja Deus ou o Destino, invalida as nossas escolhas e as escolhas do outro, invalida necessariamente o livre arbítrio. Certo?

Estas mesmas perspectivas, defendem que Deus ou o Destino, aproximou determinadas pessoas para que elas possam “aprender” uma com a outra. Outras defendem que existe algo “por resolver” entre essas pessoas, justificando assim terem-se cruzado e estarem juntas. Que as pessoas se cruzam pelo “Karma”. Certo?

Já perceberam o paradoxo? Para os que não compreenderam, passo a explicar. Basta seguir a lógica: se tudo está “escrito”, se não existe uma real decisão, se não existe livre arbítrio, faz de nós necessariamente espectadores da nossa própria vida, na medida que está escrito e nada podemos mudar. Logo, se somos espectadores da nossa própria vida, como seria possível “decidir errado”? Se apenas somos expectadores, se não somos autores, como podemos decidir algo? Este argumento por si só, em certa medida pode invalidar a perspectiva. Se “estamos cá” para aprender, se a outra pessoa cruza o nosso caminho para aprendermos algo que nos falta e se em simultâneo somos apenas expectadores e não autores, não nos é dada essa oportunidade, nem de aprender, nem de errar. Afinal de contas os expectadores não influenciam o filme!

Os opostos atraem-se? Ciências Exactas Vs Humanas

As relações humanas são muito complexas, mas na busca de respostas, muitas pessoas tentaram extrapolar, transportar regras e leis de outras ciências, com o objectivo de tentarem compreender de uma forma mais ampla e completa as relações humanas. Seguindo esse caminho surgiu a popular afirmação: “Os opostos atraem-se!”.

Esta afirmação popular, claramente surgiu das ciências exactas, nomeadamente da física, mais especificamente do electromagnetismo, em que o polo positivo atrai inevitavelmente o polo negativo. Também ao mesmo tempo, baseando-nos ainda na física do electromagnetismo, polos semelhantes repelem-se, isto é, o polo negativo repele polos negativos e os polos positivos repelem os positivos, simples, exacto, característico das ciências exactas, matemática, física, etc.

Esta popular afirmação que “os opostos se atraem”, é possível verificar por vezes nas relações humanas, contudo, o que a ciência humana nos diz não é bem assim.

 

O Ser humano é um ser complexo, subjectivo e dinâmico

O ser humano é um ser altamente complexo, não falando na parte corporal, fisiológica, biológica, mas focando a parte essencialmente psicológica. É altamente subjectivo, cada um de nós interpreta uma mesma realidade de forma diferente, o que não faz sentido para uma pessoa, poderá fazer todo o sentido para outra. Além de que, o ser humano é dinâmico, está em constante transformação e aprendizagem, o que hoje faz sentido, amanhã poderá não fazer. Assim sendo, as ciências humanas distanciam-se inevitavelmente das ciências exactas.

Por cada decisão que tomamos, é analisada uma vasta quantidade de variáveis, não apenas conscientemente, mas essencialmente de forma inconsciente. O que nos parece muitas vezes uma simples escolha, é o resultado de uma enorme e vasta análise inconsciente de uma grande quantidade de informação, isso acontece porque temos pouca consciência de todos os processos que acontecem no cérebro. A grande maioria dos processos cerebrais, psicológicos, neurológicos, são essencialmente inconscientes, tendo pouco controle neles.

Os relacionamentos, o acaso e o cérebro

O nosso cérebro é talvez a “máquina” mais complexa de todo o universo conhecido, com uma precisão enorme em todos os processos internos. À semelhança de um simples relógio, tudo tem uma ordem precisa, nada acontece por acaso. No nosso cérebro acontece o mesmo, nada acontece por acaso, nenhum pensamento surge por acaso, nenhum comportamento surge sem uma origem. Existe sempre uma coerência, uma origem, um porquê para tudo o que acontece na nossa mente. Podemos até a maioria das vezes desconhecer essa coerência, essa ordem. Algumas vezes, pode-nos parecer que apenas existe caos, mas existe sempre uma coerência, uma ordem inconsciente.

Sendo assim, nada é por acaso. Nenhum pensamento, nenhuma acção, muito menos uma escolha ou decisão é fruto do acaso. Desta forma, não será então por acaso que escolhemos uma pessoa e não outra numa relação, podemos até não entender o porquê, mas existe um porquê inconsciente, que muitas vezes foge à razão consciente. Assim, nenhuma pessoa surge por acaso, não porque está escrito no destino, mas por nossa decisão inconsciente.

Algo que não temos completa consciência, é captado e analisado pelo nosso inconsciente, de forma muito rápida e faz-nos afastar ou aproximar da outra pessoa. A análise inconsciente pode ir muito além do que os nossos olhos são capazes de ver, existindo informação de várias fontes e variáveis que em análise.

Mas afinal o que nos diz a ciência?

Tendo em conta que a ciência humana está longe de ser exacta e que o ser humano é altamente complexo, não é possível encontrar leis, nem regras imutáveis, apenas podemos encontrar fortes tendências e correlações.

O que a psicologia nos diz, contraria em parte a afirmação popular que “os opostos se atraem”. A psicologia afirma sim, que o que é diferente de nós inevitavelmente vai atrair mais a nossa curiosidade. Facilmente percebemos essa curiosidade pela diferença, basta alguém vestir-se diferente para que a nossa atenção “fuja” e se foque nessa pessoa. A ciência diz-nos isso mesmo, que a curiosidade da diferença é uma força muito grande para que nos aproximemos de alguém.

A ciência diz-nos também que nos primeiros meses surge a paixão, que pode ser alimentada por essa curiosidade pela diferença, pela curiosidade de conhecer o outro, pela atracção física e sexual, contudo, a paixão não dura para sempre, ou melhor é necessário encontrar outros combustíveis, além daqueles nomeados inicialmente.

O Fundamental

No momento inicial, devido ao cocktail químico que é a paixão, é normal e característico o nosso cérebro perder a lucidez, e por momentos, por meses, algumas vezes anos, tudo parece perfeito. Mas, à medida que a paixão inicial, se desvanece, vamos ganhando mais consciência da nossa escolha e até mesmo dos defeitos do outro. Nesse momento surge a bifurcação do caminho, ou continuo com a pessoa e juntos construímos “o amor” ou nos afastamos.

Na “construção do amor” em conjunto, a ciência defende que quanto mais semelhantes forem ambos, mais fácil será essa construção.  Interesses comuns, prioridades semelhantes, personalidades parecidas, podem ser pontos que favorecem a construção do amor numa relação. Já neste momento, todas as diferenças são potenciais obstáculos entre ambos.

Concluindo

Não nos aproximamos de alguém por acaso. Segundo a ciência, existe sempre um porquê. Esse porquê não se deve a uma força superior a nós, mas sim ao nosso inconsciente. O nosso inconsciente percebe que a outra pessoa é compatível em primeira instância, que nos pode ensinar algo mais, que é diferente, e o nosso consciente decide aproximar-se da pessoa, sem perceber ao certo o porquê.

A ciência também nos diz que enquanto as diferenças podem ser essenciais num primeiro momento, na paixão, posteriormente, no amor, essas mesmas diferenças podem ser potenciais obstáculos. É mais fácil construir algo em conjunto, quando existem semelhanças, na forma de construir. Se cada um remar para um lado, com ritmo e forma diferente, dificilmente conseguirão um destino comum.

 

Importante referir:

Como foi possível perceber não existe amor à primeira vista. O que pode surgir à primeira vista é atracção, paixão e curiosidade. O amor surge posteriormente, o amor constrói-se! Como seria possível amar um presente, se apenas vejo o embrulho? Posso sim, achar o embrulho muito bonito e criar uma expectativa real ou não sobre o presente.

A ciência diz-nos que sentimos curiosidade por pessoas diferentes, “polos opostos podem atrair-se” pelas diferenças, pela curiosidade. Mas o que mantém as pessoas unidas são as semelhanças! Contudo, mais uma vez refiro que o ser humano é complexo e subjectivo, logo, a ciência pode apenas identificar tendências e correlações. Não existem relações e pessoas iguais, logo não existem regras universais.

Mais uma coisa:

Não vou julgar a existência de Deus ou do destino, cada um de nós é livre de acreditar no que lhe fizer mais sentido. Não existe apenas uma verdade, mas cada um de nós tem a sua verdade e tem o direito a tê-la.

Independentemente de existir ou não Deus ou destino, acredito que somos construtores do nosso futuro, somos actores na nossa vida. Acredito que temos livre arbítrio, que podemos fazer melhor, que podemos fazer diferente.

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