Desde o início dos tempos, das sociedades e comunidades, enquanto seres humanos, existe um medo que condiciona em muito as interações humanas, essencialmente os relacionamentos de amizade, mas principalmente os relacionamentos amorosos. Obviamente, este medo está presente em todos os nossos relacionamentos, principalmente os mais importantes e significativos para nós. Mas até que ponto esse medo pode ser considerado normal ou patológico? Até que ponto esse medo deriva de uma situação real, de verdadeiro potencial “perda” física ou psicológica do outro? Ou esse medo deriva essencialmente das nossas inseguranças internas?

Quando falo medo de perder, em primeira instância, parece abranger todas as relações importantes e significativas e assim é. Óbvio que a maioria dos pais tem medo de perder um filho, é obvio também que a maioria dos filhos tem medo de perder os pais, perder física ou psicologicamente.  No caso dos relacionamentos entre os membros de uma família unida é comum esse medo, medo de perder alguém que esteve sempre presente desde que nos lembramos (para os mais novos) ou medo de perder alguém que acompanhámos o crescimento e em muitos casos influenciámos e fomos responsáveis diretamente na sua educação (para os mais velhos). Nestes casos é muito comum, podendo até considerar esse medo “normal”, porém, neste artigo não me irei focar neste tipo de relações, pretendendo então focar nas relações de amizade e essencialmente as relações amorosas.

Todos sabemos e muitos de nós já viveu e sentiu em primeira pessoa o medo de perder, em relacionamentos de amizade, mas essencialmente em relacionamentos amorosos. Quem nunca teve um relacionamento na infância ou na adolescência e quando por algum motivo terminou, não ficou destroçado? Quem nunca, após o primeiro amor ter terminado, chorou desalmadamente, entrou em pânico, acreditando que nada mais faria sentido, nem a própria vida?

É comum existir até certo ponto, o medo de perder o outro, pois se temos um relacionamento com a outra pessoa, se ela nos faz sentir bem, se ela é importante e significativa para nós, óbvio que não queremos perder. Contudo, existem casos em que esse medo domina a pessoa, existem casos em que o medo é tão excessivo que molda muitos dos comportamentos e atitudes da pessoa, em muitos casos não conseguindo fazer a sua vida normalmente. Nesses casos o medo de perder é patológico e muito provavelmente essa pessoa precisa de ajuda.

Como se manifesta esse medo de perder patológico?

Ao contrário do que podemos pensar inicialmente, o medo de perder não é apenas associado à obsessão e ao ciúme, o medo de perder pode manifestar-se essencialmente de três formas diferentes:

Evitar relações- Uma pessoa que tem medo de perder o outro, pode, depois de ter passado por algumas perdas no passado, evitar relacionamentos. Já que para ela os relacionamentos podem ser sinónimo de sofrimento, sinónimo de perda.  Assim sendo, esse medo condiciona o seu comportamento ao evitar relações, podendo aparentemente parecer alguém “super” independente, alguém que não precisa de ninguém, mas lá no fundo é apenas o medo de se aproximar e perder.

Não Investir nas relações– Outras pessoas, tendo um relacionamento, mas acreditando que é possível perder o outro a qualquer momento, na maioria dos casos sem motivo real, não se permitem investir na relação. Pois elas, talvez por experiências do passado, acreditam e sabem que quanto mais próximo estiverem do outro, quanto mais o outro for importante para elas, maior irá ser a dor da perda. E como estratégia de evitar e até mesmo prever essa dor, simplesmente não investem, não se entregam, não se aproximam, tentando manter uma mínima distância psicológica para com o outro.

Obsessão- Esta forma de manifestação do medo a perder é talvez a mais popular, é talvez a forma de manifestar o medo de perder mais comum ao senso comum. Na obsessão, mais uma vez, talvez por experiências do passado, o medo de perder é tão intenso que a pessoa acredita que quanto mais controlar, quanto mais restringir o outro, menor a probabilidade de ser “abandonada”, “deixada”, “trocada” pelo outro.

 

Qual a origem deste medo de perder patológico?

Como foi possível perceber, existem três formas distintas de o mesmo medo se manifestar. Três formas distintas, implicando níveis de consciência, autoconhecimento, estratégias internas diferentes. Mas qual é a origem deste medo patológico que por vezes condiciona toda a vida de uma pessoa?

Como foi referido anteriormente, as experiências do passado são importantes neste medo. Não apenas experiências de relacionamento amorosos que não deram certo, em que a outra pessoa terminou a relação, seja por que motivo for, mas também e muito importante, por situações que aconteceram na infância com os pais ou os educadores, muitas vezes situações de abandono, físico ou mesmo psicológico da parte das pessoas próximas. E como é característico do ser humano, principalmente na infância, o nosso pensamento poderá generalizar a maioria das vezes de forma inconsciente. É comum alguém que foi abandonado física ou psicologicamente na infância ter muito medo de perder o outro.

É facilmente compreensível que as situações de perda do passado aumentem o medo de perder, essencialmente medo que aconteça novamente o que aconteceu, medo de sentir o que sentiu, contudo, as experiências do passado não são necessariamente a origem, podem sim ser um catalisador, um potencializador desse medo, pois a origem é mais profunda.

A origem do medo de perder patológico está essencialmente na falta de amor próprio. Mas como assim? O que uma coisa tem a ver com a outra? Tudo! O medo de perder o outro está diretamente correlacionado com a falta de amor próprio, isto é, quanto menos amor próprio tenho, quanto menos me amo, mais medo terei de perder o outro.

Aparentemente, pode carecer de lógica, mas se formos um pouco mais a fundo, faz todo o sentido. Basta seguir a lógica de pensamento, se eu acreditar que tenho valor e estiver seguro disso, dificilmente vou acreditar que o outro me poderá deixar ou trocar, pelo contrário, se acreditar que não tenho valor, facilmente acredito que o outro pode facilmente encontrar alguém melhor que eu, deixar-me e trocar-me, é lógico e fácil de entender.

Manifestações diferentes, mas resultados semelhantes?

Como foi possível perceber existem várias formas de manifestar este medo de perder patológico, porém todas elas, em última instância, irão culminar num resultado semelhante. Tanto a evitar os relacionamentos, como no facto de não investir no relacionamento, como pela obsessão, o resultado será semelhante, na maioria dos casos provocando a dor que esse medo tenta evitar. Isto é, a pessoa com todas estas estratégias inconscientes, nomeadamente: controlando, restringindo, não investido ou até mesmo investindo, dificilmente se conseguirá relacionar a longo prazo de forma profunda com o outro, e certamente aumentará a probabilidade que aconteça aquilo que tanto temia, o “abandono” do outro.

Racionalmente, facilmente conseguimos compreender. Quem gosta de ser controlado, restrito? Quem gosta de sentir que está na relação sozinho? Provavelmente ninguém! E assim, inconscientemente, é provocado o destino que tanto se temia. Esse medo patológico, na maioria dos casos, este medo de perder o outro, culmina com a partida do outro, sendo a pessoa amedrontada corresponsável de toda essa situação. Terminando muitas vezes de forma cliché: “ Eu sabia desde o inicio que me ia abandonar.” ou então “Não tenho sorte, só atraio pessoas que não prestam, não tenho sorte.”, ou até mesmo “Eu percebi desde o inicio que ia brincar com os meus sentimentos, desde sempre tive um pressentimento.”, quando as próprias pessoas são parcialmente responsáveis desse mesmo destino.

 

Em jeitos de conclusão

É comum ter medo de perder, principalmente pessoas que gostamos, pessoas significativas, pessoas próximas, pessoas importantes, mas se esse medo incapacita a pessoa, ou condiciona-a, impedindo-a de fazer a sua vida normalmente, possivelmente necessita de ajuda.

É importante referir e até mesmo lembrar, o outro não nos completa, nós já nascemos inteiros! Essa é uma perspetiva romântica que pode revelar imaturidade e essencialmente pouco valor próprio, baixa autoestima e talvez mesmo uma tendência para a dependência emocional. Existe mais vida além do outro!

O que o outro pode, é complementar-nos, que é muito diferente de completar! O outro pode aumentar, incrementar o valor que tenho, mas em nenhum momento o nosso valor se resume ao outro, o outro acrescenta-nos valor.

Não deve existir apenas o nós! Deve necessariamente existir também o eu e o outro. O nosso eu, não se dissolve com o nós.

A Lembrar:

O ciúme é típico do medo de perder patológico, quase exclusivamente da manifestação obsessiva, contudo e a não esquecer, o outro deve ter direito o seu espaço, a sua privacidade, por lei. Perseguições, controlar o telemóvel, o computador, o email, correio pessoal, sendo a pessoa obrigada ou coagida ou mesmo violar a privacidade do outro é crime punível por lei, considerado em alguns casos violência doméstica.

 

 

“O segredo é não correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você.”

Elhers

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