A riqueza, o dinheiro, os bens materiais, desde o início dos tempos foram dos temas que mais preocuparam os homens. O dinheiro e os bens, representam poder desde tempos imemoriais. Compreender e dominar a forma das pessoas gastarem e ganharem dinheiro é para muitos a verdadeira “galinha dos ovos de ouro”. Sendo a psicologia, por definição a ciência que estuda o comportamento humano, em todas as suas dimensões, surge como meio essencial de compreensão do comportamento financeiro. Talvez seja a psicologia do dinheiro que nos pode dar o mapa até a “galinha dos ovos de ouro”.

Desde a existência das primeiras comunidades, mesmo antes do dinheiro, o facto de possuir bens materiais, era para a maioria reflexo de poder pois, mesmo sem dinheiro, era possivel trocar bens por outros bens ou mesmo serviços. Inevitavelmente quem tinha mais bens, quem caçava mais, quem tinha mais fruta, possuía sempre algum poder sobre os restantes, principalmente quando esse bem era para os outros muito desejado.

Posteriormente às trocas surge o dinheiro. As primeiras moedas datam do século VII a.C., encontradas na Turquia. O dinheiro surge com a função de mediador de trocas. As pessoas “trocavam” os bens e serviços por dinheiro e posteriormente trocavam o dinheiro por bens e serviços.

Dinheiro e Charles Darwin

Facilmente conseguimos compreender as primeiras consequências da existência do dinheiro. A primeira e mais fácil de perceber é a facilidade de utilização, o que potencializou e expandiu as possibilidades de trocas. Ao contrário de muitos dos bens e serviços, o dinheiro não possuía validade, permitindo assim sem problema, passar dinheiro entre gerações. Por outro lado, ao contrário dos bens e serviços, o dinheiro não possui um rasto tão claro, isto é, antes do dinheiro existir, quando se roubava ao ferreiro, roubava-se ferro, quando se roubava ao caçador, roubava-se caça. Os bens e serviços sendo característicos de cada pessoa, seriam quase parte da identificação da mesma, exemplificando: Um agricultor não iria ter caça, se não trocasse com o caçador. O dinheiro, no entanto, é possível de ser roubado, desviado ou extraviado que dificilmente deixa em si mesmo rasto.

Todas as características do dinheiro fazem com que este seja muito valorizado, pois o dinheiro, são bens e serviços em potência. Além de que as mesmas características do dinheiro, favorecem maiores distâncias entre o nível económico das pessoas, isto é, uma maior distância entre pobres e ricos, provocando inevitavelmente mais injustiças e diferenças entre as pessoas, tornando-se uma característica de poder, desafiando a própria selecção natural de Charles Darwin. Actualmente, o dinheiro pode por em causa a teoria da evolução de Darwin, pois os que “vencem” não são necessariamente os mais aptos, os mais inteligentes, os mais fortes ou os mais rápidos, actualmente quem “vence” é quem tem mais dinheiro.

Mente e o Dinheiro

Sendo o dinheiro assim tão importante é necessário, compreender a mente das pessoas, no momento de gastarem o dinheiro e nesse ponto entra a Psicologia, a “Psicologia do dinheiro”. De uma forma indirecta, a “Psicologia do Dinheiro” já está presente no marketing, na psicologia das massas, ou mesmo nas ciências económicas, onde se estuda directa ou indirectamente o comportamento do consumidor.

Quantos de nós muitas vezes literalmente “hipnotizados”, compramos coisas que não necessitamos? Quantas pessoas não conseguem gerir de forma saudável as suas finanças, recorrendo facilmente aos créditos?

Assim sendo, com o propósito de promover o pensamento financeiro, deixo então 5 mitos sobre o dinheiro, para vos ajudar na vossa caminhada.

 

MITO DA FELICIDADE – A FELICIDADE NÃO SE COMPRA

Segundo a ciência, se não passa dificuldades maiores, como passar fome ou não ter casa, independentemente do que possa comprar, isso não o vai fazer mais feliz. A ciência diz-nos que mesmo ganhando milhões, pode existir um pico de alegria/felicidade inicial, porém, passados 6 meses, essa mesma felicidade voltará ao normal da pessoa.

 

MITO DOS AMIGOS – O DINHEIRO NÃO COMPRA AMIZADES

Muitas pessoas acreditam que podem “comprar amizades”. Quantas vezes vimos alguém a oferecer algo, com esperança de fortalecer uma amizade ou mesmo conquistar o amor de alguém? As amizades constroem-se de interesses, paixões comuns, compreensão, cumplicidades, formas convergentes de verem o mundo, não de trocas materiais ou financeiras. Contudo, um gesto significativo, como ajudar pontualmente alguém num momento de dificuldade financeira, pode conquistar o respeito e consideração.

 

MITO DO RECONHECIMENTO – A ILUSÃO DA VALORIZAÇÃO

É comum pessoas encontrarem na compra de bens de luxo uma forma de ser valorizados pelo mundo exterior. Mesmo de forma inconsciente, algumas pessoas esperam reconhecimento e valorização do exterior, comprando bens de luxo, muitas vezes fazendo créditos que não podem pagar. Porém, este caminho é um beco sem saída, pois as pessoas que procuram aprovação e valorização no exterior, talvez duvidem do valor do seu interior e veem na compra de bens de luxo a única forma de serem valorizadas pelas pessoas à sua volta. Facilmente apostamos num embrulho inesquecível quando duvidamos do valor do presente.

 

MITO DA DECISÃO RACIONAL – NÃO CONTROLAMOS A NOSSA EMOÇÃO

Se acreditamos que alguma vez fomos totalmente racionais, provavelmente estamos a ter um pensamento inocente ou estamos a tentar enganar-nos a nós mesmos. Em todas as nossas decisões, está presente sempre emoção, senão nem a própria tomada de decisão existiria. Nós dominamos o pensamento, mas somos dominados pela emoção, ela pode sobrepor-se a todo e qualquer pensamento. Sendo mais permitiva, facilmente vence a razão. Podemos até controlar a manifestação de uma emoção, mas dificilmente conseguimos evitar tê-la. Nas nossas decisões, nas nossas compras, somos escravos dos nossos desejos. Até podemos ser muito práticos e racionais, mas se algo nos toca emocionalmente, hipnotiza-nos, daí, as melhores campanhas de vendas, toquem essencialmente na parte emocional.

 

MITO DA VIDA PERFEITA – O DINHEIRO NÃO TEM APENAS BENEFÍCIOS

Apesar de oficialmente o dinheiro não aumentar a felicidade, ele possibilita uma vida diferente, abre-nos as portas a experiências que dificilmente vivenciaríamos se não tivéssemos dinheiro. Contudo, tal como era de esperar, nada é perfeito. O dinheiro tendencialmente atrai falsos amigos, amigos oportunistas. Necessariamente mais responsabilidades, provavelmente dores de cabeça e noites sem dormir. Além da inevitável falta de tempo para tudo, para fazer o que nos apaixona ou mesmo estar com as pessoas que amamos.

 

O dinheiro, mais propriamente, o comportamento e as atitudes que o envolvem, são bastante complexas de um ponto de vista psicológico. A psicologia pode-nos ajudar a compreender melhor o comportamento humano neste campo, porém, ainda há muito por descobrir. Hoje sabemos que o dinheiro é muito poderoso, mesmo que para a ciência não seja reflexo directo de felicidade.  Finalizo então com algumas questões para reflectirem:

Qual o momento mais feliz da sua vida? Quem é a pessoa que mais admira? Porquê o seu melhor amigo é o seu melhor amigo? Dificilmente alguma das respostas às perguntas anteriores envolveu dinheiro. Trocaria a sua vida por dinheiro? E o seu tempo? O que trocaria por dinheiro?