Desde o início dos tempos, a mudança foi sempre um tema sobre o qual o mundo de forma geral se questiona, não apenas pela frequente necessidade de mudança, mas principalmente pela incapacidade de a impulsionar. Desde o momento em que o homem se tornou um ser consciente, com objectivos, surge na mente humana o tema ou a necessidade de mudança. A necessidade de mudança surge como consequência da existência de objectivos a atingir e fazê-lo de forma mais eficiente. No entanto, se existem objectivos sempre implícitos em tudo o que fazemos, porque é tão difícil mudar?

Sem Objectivo ou Emoção, não existe mudança

De forma lógica e simples é possível perceber que se não existirem objectivos, não haverá necessidade de mudança. A mudança surge sempre aliada a um objectivo, apesar de poder despontar de forma espontânea, porem sem objectivo, pode ser tornar obsoleta, sem sentido. É possível após uma mudança espontânea, encontrar um objectivo que se adapte à mudança, contudo, este percurso pode tornar-se caótico. Isto é, idealmente, o objectivo seria o orientador da mudança consciente.

Posso dar exemplos concretos para que seja mais simples perceber. Um individuo está desempregado e gostava de ter um emprego, terá que mudar algumas coisas no seu comportamento habitual, terá que fazer algumas coisas que habitualmente não faz, como por exemplo: enviar currículos. Ele terá que incluir esta mudança de rotina no seu comportamento para que se possa aproximar do objectivo pretendido. Como disse anteriormente, é possível que a mudança possa surgir antes do objectivo, porém, pode não fazer qualquer sentido. Isto é, tendo um bom emprego e não querendo mudar, dificilmente ele teria a ideia de enviar currículos. Obviamente poderia fazê-lo, mas seria um comportamento errático. Perante qualquer mudança de comportamento, tem que existir sempre um objectivo, um porquê, uma intenção, que por vezes pode fugir à inteira consciência do próprio sujeito. Logicamente, subentende-se que perante a inexistência de mudança, também existe inexistência de objectivo, de porquê ou intenção.

Tendo um objectivo, esse necessita de ter uma carga emocional para o sujeito. Sem emoção, não existe motivação. Pegando no mesmo exemplo, um individuo está desempregado e não gostava de ter um emprego, obviamente não iria mudar, obviamente não iria tomar iniciativa, nem estaria motivado a enviar currículos. Ou se o sujeito não tem boas perspectivas do eventual emprego, embora não goste nem queira estar desempregado, não terá a “emoção certa” para mudar.

Existência de Benefícios Secundários

Muitas vezes existem benefícios secundários que podem fugir à consciência do próprio sujeito e que o impedem de mudar. Existem situações críticas, situações limite, que por não existir a mudança, podem acarretar graves problemas para a vida da pessoa, não apenas a nível profissional como também pessoal. Situações graves em que a pessoa é levada ao limite por não mudar. Quantas vezes vimos alguém desempregado, incapaz de começar a trabalhar, alguém incapaz de deixar de fumar agravando um problema de saúde, alguém incapaz de deixar um relacionamento, apesar de ser um relacionamento tóxico? Falando de benefícios secundários, surge a questão obvia: será que a pessoa “gosta” do estado actual, apesar de ser crítico e grave? A resposta é: não e sim, isto é, a pessoa não gosta da situação critica, da dificuldade em que está, MAS, pode ter alguns benefícios secundários.

Como pode existir benefícios numa situação grave e de dificuldade?

Aparentemente parece que não faz sentido, mas mais de perto poderá fazer todo o sentido, pegando nos exemplos: talvez a pessoa estando desempregada, tem mais tempo para ela e para os filhos, tem mesmos situações de stress, podendo até a saúde física melhorar. Talvez o fumar para a pessoa seja a única forma de ela reduzir o stress, de socializar, de se afirmar perante um grupo. Talvez o relacionamento tóxico seja a única forma de combater a solidão, ou não consiga ver estabilidade financeira fora do relacionamento, ou até que para ela o compromisso seja mais importante que o amor próprio. É frequente perante uma situação grave em que a pessoa é incapaz de mudar existirem benefícios secundários, na sua maioria fugindo à sua própria consciência.

Falta de autoconhecimento: Crenças limitadoras e Insegurança

Como é possível facilmente reparar nos exemplos anteriores, a maioria dos benefícios secundários assentavam em crenças limitadoras e irracionais. Se acreditarmos que não seremos capazes, muito dificilmente iremos conseguir. Se acreditarmos que o fumar é a única forma de socializar e de nos afirmarmos perante um grupo, essa mudança será muito mais difícil, pois o fim do cigarro traria inevitavelmente o fim da socialização e da valorização dentro do grupo.

A ausência de autoconhecimento dificulta todos os passos que possamos dar no caminho, porque se desconhecemos o nosso passo, certamente iremos duvidar se iremos ser capazes de chegar ao fim do caminho. Pelo contrário, se estamos habituados a caminhar, conhecemos muito bem o nosso passo, mesmo desconhecendo o caminho, temos a confiança necessária para acreditar que será possível chegar ao fim. O mesmo acontece com as nossas competências e aptidões, se nós as desconhecemos como vamos perceber se existem muitas ou poucas probabilidades de sermos bem sucessivos? Obviamente teremos medo.

Conhecido Vs Desconhecido e Risco

O medo do desconhecido surge também muitas vezes como inibidor da mudança, ele paralisa qualquer pensamento ou iniciativa com intenção de mudar. O caminho que percorremos, apesar de ser mau, apesar das pedras e buracos que é possível encontrar, apesar de não nos sentirmos bem a percorrê-lo, apesar de estarmos no limite, é mais certo que qualquer caminho desconhecido, que não sabemos que obstáculos apresenta, nem onde vai dar.

Obviamente, que conhecemos mais e melhor o “caminho conhecido”. Obviamente que o caminho conhecido é mais certo e concreto que o caminho desconhecido. Contudo, nada indica que o caminho desconhecido é pior, tem mais obstáculos, pode-nos levar para mais longe ou a longo prazo não será melhor. Mais uma vez surge a nossa mente a induzir-nos em erro devido às crenças limitadoras, crenças irracionais ou mesmo por pura insegurança. A nossa mente procura não correr risco, diminui-lo ao máximo, porém, em todas as decisões, em toda a mudança existe risco e cabe a cada um gerir esse risco.

Tempo: Curto prazo Vs longo prazo

O tempo pode ser um elemento importante para a mudança. A nossa dificuldade na percepção do tempo a longo prazo prejudica a nossa mudança. Pois se posso mudar, começar, corrigir amanhã, porque estou a stressar-me hoje? Por vezes o ser humano, tem inconscientemente a ilusão da eternidade, como se o amanhã nunca irá chegar, mas é apenas uma ilusão que sem querer nos prende ao curto prazo.

Imaginem então uma situação hipotética: um sujeito a ser levado por um rio na direcção de um precipício. A curto prazo o sujeito sente-se seguro, está no barco, não tem que remar, a força do rio leva-o de viagem, uma viagem tranquila, talvez mesmo com uma paisagem maravilhosa. Já a longo prazo o barco irá cair no precipício, que será um momento muito grave e difícil. Nesta viagem surgem diversas variantes possíveis: o sujeito sente-se tão seguro que simplesmente negligencia a direcção que o rio está a tomar; o sujeito é avisado do precipício, mas não acredita, crendo que o rio será sempre como tem sido até àquele momento, tranquilo; o indivíduo toma consciência do precipício, mas não toma atitude para o evitar, porque não se quer molhar, porque o barco é muito importante, porque é cansativo remar, ou porque acredita que algo ou alguém o vai salvar; o indivíduo toma consciência e mobiliza-se para se salvar, mergulhando, dando tudo de si. Esta situação metafórica, representa todos os possíveis cenários de qualquer mudança, podendo ser claro que o curto prazo nada nos diz sobre o longo prazo. O precipício irá continuar lá. Podemos negligenciá-lo, podemos negar a sua existência, duvidar da sua existência, mas se não mergulhamos, de certo que iremos cair.

Economia de comportamentos

A natureza inconsciente da nossa mente procura tornar os nossos comportamentos eficientes, procurando o máximo de benefício com o mínimo de esforço. O ser humano é um ser de rotinas, a rotina dá-nos (ilusão) segurança e eficiência nos comportamentos. Perante uma situação nova, desconhecida para nós, o nosso comportamento está longe de ser eficiente, mas com a repetição, a rotina, gradualmente tenderá para a melhoria da eficiência. Por sua vez, mais eficiência equivale a mais rotinas instaladas e consequentemente mais estagnação, o que leva a menos necessidade e motivação para a mudança e mais medo de mudar.

 

Em jeito de conclusão

A mudança é difícil complicada, mas é possível. Parte da nossa biologia luta contra a mudança, a mudança é sinonimo de stress. Parte da nossa mente procura rotinas, pois a rotina torna os comportamentos eficientes.

Contudo, a mudança é inevitável e necessária. Perante um novo objectivo, haverá necessariamente uma nova mudança. Se não fosse a mudança, ainda hoje viveríamos em cavernas caçando animais selvagens.

O ser humano é um ser paradoxal relativamente à mudança, procura rotinas, mesmo tendo consciência que tudo está em constante mudança.

Perante uma mudança, perante o desconhecido, não é possível fugir por completo ao risco. Haverá sempre risco, mas também será sempre uma aprendizagem.

 

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